Couraça muscular: o que é, onde fica e por que não adianta forçar
Reich reparou numa coisa atendendo pacientes: eles não resistiam só com as palavras. Resistiam com o corpo. A postura, o tom de voz, o jeito de sentar, tudo participava da defesa.
Ele chamou isso de couraça. E disse que ela não é só uma atitude mental, porque tem endereço físico. Fica na musculatura, em faixas.
Onde ela costuma ficar
Três lugares aparecem mais do que os outros na minha experiência, e são os mesmos que ele descreveu há oitenta anos.
O primeiro é a mandíbula e o pescoço. Gente que segura o maxilar o dia inteiro e só descobre quando alguém encosta ali. O segundo é o diafragma, logo abaixo das costelas, que é onde a respiração para quando a pessoa não quer sentir. O terceiro é a pelve, que Reich descrevia como imóvel, e que é de longe a região que mais demora a soltar.
Por que forçar não funciona
Essa é a parte que eu levei mais tempo para aprender, e aprendi errando.
No começo, quando eu encontrava uma região dura, eu insistia. Achava que era questão de pressão e de tempo. O que acontece quando você insiste numa couraça é que ela responde apertando mais, porque o corpo entende a insistência como ameaça. Faz sentido: ela foi construída justamente para aguentar pressão.
O que funciona é o contrário. Você chega, fica, não força, e espera. Em algum momento a região entende que não está sendo invadida e afrouxa sozinha. Parece pouco, mas é a diferença entre a pessoa sair solta ou sair dolorida.
A Cris chega no mesmo lugar por outro caminho: sustentar a pressão até o tecido ceder, em vez de vencer o tecido na força.
A moralidade contra a natureza cria uma contradição psíquica aguda e irreconciliável.
O que sobra disso
Reich achava que essa armadura vinha de fora, da educação, da repressão, do que a pessoa aprendeu que podia ou não podia sentir. Ele foi longe nessa ideia, longe demais para o meu gosto, e a parte política do trabalho dele eu prefiro deixar para quem estuda isso a sério.
O que eu levo é a parte simples. O corpo guarda. Guarda em lugares que dá para encontrar com a mão. E raramente solta porque alguém mandou.
Com esse texto fechamos a série de três. Se você leu os três, obrigada pela paciência. Se quiser continuar a conversa, o livro está aí, e vale mais do que qualquer resumo que a gente faça dele.
O que escrevemos aqui é leitura e reflexão sobre um livro, não orientação de saúde. Nossa sessão é uma experiência sensorial, não tratamento terapêutico. Se você procura acompanhamento psicológico ou médico, procure um profissional da área.
Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica. Tradução de Maria da Glória Novak. 9ª edição, 1975. Original: Die Funktion des Orgasmus, 1942.