O ciclo que o corpo repete, e onde ele costuma emperrar
Eu sou bacharel em Educação Física. Passei anos estudando como o músculo contrai, como o sangue chega, como o corpo se organiza para fazer força e como ele se desorganiza quando não consegue.
Quando li Reich pela primeira vez, o que me pegou não foi a parte filosófica. Foi o desenho de quatro tempos que ele fez, porque é a mesma lógica de qualquer coisa que o corpo faz.
Os quatro tempos
Reich descreveu assim: tensão, carga, descarga, relaxação. Enche, acumula, solta, repousa. Ele falava especificamente da resposta sexual, mas a sequência não é exclusiva dela. É a mesma de um esforço físico, de um susto, de uma discussão que termina bem.
Primeiro o corpo se enche. Chega sangue, chega líquido, a região fica mais quente e mais sensível. Depois vem o acúmulo, a carga, aquela sensação de que alguma coisa está subindo e precisa de saída. Então vem a descarga, que é involuntária. E por último a relaxação, quando tudo volta ao lugar.
O processo do prazer sexual é o processo da vida per se.
Onde emperra
Quase sempre na terceira. A descarga é a única das quatro etapas que a pessoa não controla, e é justamente por isso que ela trava.
Dá para observar isso de fora, e eu observo o tempo todo. A pessoa está indo, a respiração está soltando, e de repente ela segura. Prende o ar. Enrijece a perna. Faz uma piada. Qualquer coisa serve para retomar o controle da situação. Não é falta de vontade. É um reflexo de quem aprendeu, em algum momento da vida, que não é seguro se entregar.
Reich chamava de impotência orgástica, e fazia questão de dizer que não tinha a ver com desempenho. Uma pessoa pode ter uma vida sexual inteira sem nunca chegar na quarta etapa, a do relaxamento de verdade.
Por que a respiração vem primeiro
Porque é a única parte disso tudo que você consegue mexer de propósito.
O músculo você não relaxa por decisão. O coração você não desacelera porque quer. Mas a respiração aceita ordem, e quando ela desce, o resto do sistema entende que pode baixar a guarda. É por isso que a primeira coisa que fazemos na sessão não tem nada a ver com toque.
Vale repetir o que a Laura escreveu: nada disso é tratamento. Reich era médico e escrevia sobre pacientes. Eu não trato ninguém. Só olho para o corpo com o que aprendi e trabalho com o que ele me mostra.
O que escrevemos aqui é leitura e reflexão sobre um livro, não orientação de saúde. Nossa sessão é uma experiência sensorial, não tratamento terapêutico. Se você procura acompanhamento psicológico ou médico, procure um profissional da área.
Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica. Tradução de Maria da Glória Novak. 9ª edição, 1975. Original: Die Funktion des Orgasmus, 1942.
