O que Reich chamou de estase, e o que eu vejo nas sessões
Tem uma coisa que eu percebo antes mesmo de encostar na pessoa. Ela chega, deita, e continua segurando alguma coisa. O ombro não desce. A mandíbula fica travada. A respiração para na metade do caminho, lá na altura do peito, e não desce mais.
Depois de seis anos e mais de três mil atendimentos, eu diria que essa é a situação mais comum que encontro. Não é dor. A pessoa não chega reclamando de nada. Ela chega tensa de um jeito que já virou normal para ela.
Um livro que deu nome ao que eu via
Faz um tempo que leio Wilhelm Reich. Ele era médico, começou na psicanálise com Freud e depois seguiu um caminho próprio, mais voltado ao corpo. Em A Função do Orgasmo ele descreve uma coisa que chamou de estase: a energia que o corpo produz e não consegue descarregar fica parada em algum lugar.
Reich estava falando de clínica, de tratamento, de pacientes em análise. Não é o que eu faço, e faço questão de deixar isso claro. Mas o desenho que ele fez do corpo que acumula e não solta é exatamente o que aparece nas minhas sessões todo dia.
Por que a pessoa não percebe
Porque a tensão não dói. Ela pesa. É diferente.
Dor a pessoa nota e vai atrás. Peso ela carrega e acha que é o normal dela, que é da idade, que é do trabalho. Eu já ouvi "eu sou assim mesmo" umas quinhentas vezes. Quase sempre de alguém que, quarenta minutos depois, respira de um jeito que não respirava quando chegou.
Reich tinha uma frase que ficou comigo:
A saúde psíquica depende do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se.
Entregar-se. Não relaxar, não descansar, não desligar. Entregar. É outra coisa, e é bem mais difícil do que parece, porque exige parar de vigiar o que está acontecendo com você.
O que a gente faz com isso
Nada de mágico. A sessão dura uma hora e a maior parte dela é conseguir que o corpo baixe a guarda. O toque ajuda, o ambiente ajuda, o fato de você não precisar dar conta de nada por sessenta minutos ajuda mais ainda.
O que costuma acontecer é simples de descrever e difícil de explicar: em algum momento a respiração desce. Vai do peito para a barriga sozinha, sem ninguém pedir. Quando isso acontece, o resto muda junto.
Nos próximos textos a Cris vai falar do ciclo que Reich descreveu, tensão, carga, descarga e relaxação, e depois eu volto para falar da couraça, que é o nome que ele deu para essa armadura que o corpo constrói sem avisar.
O que escrevemos aqui é leitura e reflexão sobre um livro, não orientação de saúde. Nossa sessão é uma experiência sensorial, não tratamento terapêutico. Se você procura acompanhamento psicológico ou médico, procure um profissional da área.
Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica. Tradução de Maria da Glória Novak. 9ª edição, 1975. Original: Die Funktion des Orgasmus, 1942.